terça-feira, 14 de outubro de 2008

A filosofia no Brasil

João Ribeiro


Artigo publicado na  Revista do Brasil, nº 22, ano II, vol. VI, 1917.


Não está no temperamento nem nas virtudes de nossa raça o culto da filosofia. Entre nós, um filósofo seria coisa anômala, sem antecedências normais, a classificar entre os produtos teratológicos da espécie. Não se compreende, de fato, que surja um indivíduo, integralmente composto, fora da tradição, do habitalismo ou da história de nossas gentes. Portugal, nem o Brasil, jamais contribuíram para as investigações transcendentes. E, seja curteza de vista ou repugnância natural, não há raça mais refratária à metafísica que a nossa. O nosso idealismo não se alonga muito da terra, nem vai além dos mais próximos planetas; e, fora da poesia condoreira e do gongorismo dos epítetos, ninguém se preocupa com o infinito.

É louvável essa moderação terrestre; parece-me. Entretanto, Portugal escapou de dar ao mundo um grande filósofo. Espinosa, chamado Baruch, era filho de um judeu português e daquela tribo perseguida que achou asilo na Holanda. Mas, nem era português de nascimento, nem de educação materna e nem sofrera o contagio ou a afinidade das ideias e sentimentos lusitanos, inteiramente opostos ao espírito do famoso teólogo do judaísmo. Assim, a menos que se queira registrar as insulsas e tediosas dissertações do padre Teodoro de Almeida ou os dislates do Filósofo solitário do século XVIII e ainda as extravagâncias de um certo Domingos Tarroso, nada inculca nos nossos antecedentes étnicos a capacidade do espírito filosófico.

No Brasil, na época romântica, apareceu um filósofo de medíocre valor, o visconde de Araguaia, o autor dos Fatos do espírito humano, espiritualista, acre censor de Condillac. Esse era um poeta e foi, entre nós, o fundador da escola romântica que realmente apareceu, como o constitucionalismo, antes do movimento português. Creio que ninguém lê, hoje, as suas lucubrações psicológicas e metafísicas.

Não temos, pois, propriamente nenhum filósofo. Não falo aqui, já se entende dos pensadores, isto é, dos espíritos filosofantes, críticos, sectários ou discípulos de escolas várias, positivistas, spenceristas, materialistas e quejandos de outras matizes. Sem possuirmos um só filósofo, tínhamos, e temos ainda, aquém e além mar, o diletante das ideias gerais, o pensador, conforme o expressa esta palavra estranha, excelentemente adotada no uso comum. O pensador é, na literatura da nossa língua, um tipo de alta categoria intelectual. E, sem nenhuma intenção de ridículo, é o filósofo barato. Representa o maximum do esforço metafísico.

Um dos focos dessa filosofia de puro diletantismo e, toda, de curiosidade das idéias gerais, foi o Recife sob a ação de Tobias Barreto. Quase todos os rapazes desde aquele tempo abeberam-se de preocupações filosóficas: Sílvio Romero, Fausto Cardoso, Orlando, Farias Brito, Graça Aranha e inúmeros outros. O que há neles de massudo e pedantesco vem daquele chafariz de pedras.

Grande conhecedor das coisas e das ideias alemãs, Tobias, espírito de escol mas de duvidoso gosto, exerceu um influxo despótico e excessivo sobre a mocidade que lhe rendia um culto sem limites. Era o tempo do monismo filosófico de Hartmann e de Haeckel, e por igual do materialismo de Büchner, Vogt e Moleschott. Havia de tudo nessa miscelânea tedesca: Tobias chegou, tal era o seu prestígio, ao ponto de converter os valores e de transformar em divindade um filósofo de segunda ou terceira ordem: Ludwig Noiré. Este Noiré, expositor notável do monismo, assumia ares de oráculo da filosofia coeva. Falava-se em Noiré como se fala em Homero ou Shakespeare.

Com tais elementos, um pouco dispersos e contraditórios, conseguiu Tobias influir um espírito novo na geração do tempo, e criar, ao norte, por assim dizer, uma literatura distinta da que se agitava no sul do país. Em geral o nortista, literato, tinha um grande desprezo pelos homens de letras da Corte. Sabia-os atrasados, reacionários ou retrógrados, ignorantes, afrancesados e fúteis. Escarneciam esses moços de Jouffroy, de Cousin e não tinham grande reverência por Augusto Comte. Em todo o caso, Comte, e Renan eram dignos de alguma atenção. Mas, acima deles, reinavam Ludwig Noiré e Ernesto Haeckel! Foi, entre nós, uma espécie de questão coimbrã. A confusão e o disparate não podiam ser maiores; todavia, o espírito novo, apesar de toleimas substanciais, difundiu-se rapidamente. Sílvio Romero, vindo do norte, vibrou a clava demolidora.

Se este movimento não logrou uma renovação literária, conseguiu todavia semear e colher alguns frutos. Nasceram novas tendências na crítica e nas idéias gerais, e ao mesmo tempo a atenção e a simpatia dos estudiosos pela cultura alemã.

Desse núcleo filosofante do Recife, que lhe guardou e guarda ainda uma carinhosa tradição, saiu o nosso Farias Brito, o único filósofo profissional (se assim é possível dizer) que possuímos. Farias Brito saiu, a pospelo, indignado do materialismo de seu tempo e da morte da metafísica anunciada pelos seus contemporâneos. Consagrou a vida inteira às cogitações transcendentes e pairou nas regiões desse absoluto que os rapazes haviam eliminado em imprudentes artigos de gazeta. Ele, pois, não quis ser um diletante, nem um curioso ou um mero pensador. Era um filósofo. Toda a sua atividade intelectual se coordena na metafísica. Dizem-no-lo os seus livros, sucessivamente publicados: A Finalidade do mundo em três alentados volumes, e depois O mundo interior, A Verdade como regra das ações, a Base física do espírito – esforço colossal disperso em milhares de páginas.

Coisa insólita! Este era um filósofo, pela abundância, pela prolixidade ou pela vastidão e até mesmo pela caligem de estilo, por vezes impenetrável. Frequentemente é difícil dizer o que querem aquelas páginas que necessita um meneio constante, uma perda de tempo e uma atenção que não é própria da mobilidade dos nossos dias. Não é coisa fácil, alcançar uma inteligência razoável de suas doutrinas. Percebe-se que ele era um espiritualista descrente ou indeciso que se encaminhou para o domínio da Fé. Os seus expositores são demasiado amigos e, conseguintemente, panegiristas parciais. A simplicidade e doçura de caráter do filósofo impediram nos seus críticos a verificação do valor exato de sua obra.

Esse valor, se estamos com a verdade, é nenhum. Farias Brito é um filósofo atrasado, incongruente, e não deixará um só discípulo. Querendo reviver a metafísica pelo naturalismo, e por um método obsoleto, a ratione, caiu, afinal, em contradição e antinomias com a sua própria obra inicial, quando, tarde e mal, conheceu (no Rio, suponho), os trabalhos de Bergson e W. James. Parece que não conheceu os de Schiller (falo do filósofo inglês do Humanismo) e estou certo que ignorava, na mesma ordem de idéias, os de Simmel, Hertz, Mack, Astwald, que vieram depois de Frederico Nietzsche na Alemanha.

A verdade é que os sistemas e as doutrinas novas colheram-no de surpresa, e comprometeram a solidez do edifício que ia arquitetando. A parte mais fixa de sua personalidade era o seu temperamento profundamente religioso, mau grado o terremoto de ideias que o assoberbavam. Ele queria, pelo menos, salvar a Fé, como uma relíquia digna de todo o sacrifício na terrível eversão de seus ideais. O mais não tem quase importância. As suas desigualdades monstruosas não o descoroçoam. Como quer que seja, algumas afirmativas denunciam preocupações infantis e quase simplórias do seu espírito: a de saber-se, por exemplo, se há uma religião verdadeira, a de imaginar a necessidade futura de fundir o cristianismo e o budismo com o intuito de formar uma religião nova.

Em certa ocasião, esforça-se o novo filósofo por dar um complemento à evolução orgânica, segundo Darwin. É preciso completar a evolução dos seres pela finalidade, sem se lembrar que a seleção, sendo escolha, é, por si mesma, teleológica. Mais tarde, num dos seus últimos trabalhos, sabemos que a “finalidade do mundo é o conhecimento. A evolução universal, diz ele, é um esforço permanente do cosmo para adquirir o conhecimento de si mesmo”. Desta arte, a evolução ou progresso dos seres não tem finalidade, e, logo depois, tem a finalidade do conhecimento de si mesmos.

Essas contradições, cito-as apenas para mostrar o influxo do bergsonismo e do pragmatismo sobre seu naturalismo primitivo. Não há coerência nenhuma entre as suas primeiras e últimas cogitações, onde se enxerga o esforço inútil de mostrar a unidade de sua filosofia. Sua obra, em resumo, é uma crítica sucessiva de idéias pessoais, sem sistema razoável e sem unidade visível a não ser a da sua personalidade, móvel e inquieta. Tudo nela se reflete, doutrinas novas e velhas, verdades, absurdos e extravagâncias, o dogma da queda do homem, a filosofia de A. (sic), Sergipe, o misticismo, o teosofismo e talvez o espiritismo.



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